Cristiane Sobral – Ancestrais futuristas

A vida não me deve nada

Sou lagarta fértil e encantada

Matriarca borboleta dos ventos

Iansã transformadora dos dias cinzentos

Nos dias de luta bebo o néctar da Jurema Sagrada

Atrás de mim os ancestrais sempre estão de olhos atentos

A vida não me deve nada

Despacho nas encruzilhadas das grandes metrópoles

Sigo em frente forjando outras vidas e peles

Vou de jatinho e faço ebó na quebrada

Pago em dia o preço dessa existência

Estou muito além da carne e de qualquer aparência

A vida não me deve

Tenho uma ânsia de liberdade avassaladora

Sou águia e mergulho profundo no voo intenso e breve

Meu ponto de vista é de mais do que vencedora

Aprendi a domar o leão de cada dia

Amanheço com o hálito da alegria

Não sou simulacro do branco minha gente

Sou humana e choro, fico ainda mais resiliente

A vida não me deve nem o pão

Não estou aqui pra reclamar meu irmão

Nós futuristas negros ainda vamos governar essa nação

Quem tiver ouvidos pra ouvir, ouça

Estamos aqui muito além da louça

Coloque a máscara, fique ligado, preste bem atenção.


SOBRE O PRODUTO:

A literatura negra, desde os seus primórdios na tradição da oralidade africana, brasileira negra e indígena, assumiu o compromisso na luta pela afirmação positiva da imagem de pessoas negras, contra os estereótipos e as estigmatizações promotoras da desumanização dessas identidades. A poíesis, no enlevo dessa prática antirracista, agencia nossas próprias histórias, para que possamos inventar outros horizontes. Vislumbrar as cheganças ao passado dos nossos quilombos, aldeias, do escravismo e das revoluções contra a escravidão encabeçadas por Zumbi, Luíza Mahin e tantos outros, proporciona um exercício indispensável de pertencimento e representação. O mergulho nas ancestralidades trará, nos próximos tempos, um futurismo equânime com outros cenários de realidade que inclusive contribuirão para revigorar a literatura canônica brasileira. Este trabalho poético referencia e reverencia negras e negros que vieram antes de nós e sugere versos outros e estrofes anunciadoras de silêncios involuntários para o acolhimento das complexidades e humanidades fora das caixas machistas, racistas, homofóbicas e gordofóbicas, abrindo caminhos para outras narrativas. Essa obra convida pessoas, dentro e fora do meio da literatura, a pensar esse país, nossas assimetrias no contexto da organização sociocultural. Sem negar ou desprestigiar outras culturas, está posto um chamado para refletirmos e para que, quem sabe, surja a percepção enquanto sujeitos e protagonistas de nossas histórias. Em um tempo em que ainda temos constatada a invisibilização, o silenciamento, a violência e os apagamentos de corpos fora do padrão normativo proposto pelo Estado Nação e, ainda na erupção e na emergência de tantas estéticas negras diante de um contexto pandêmico, urge a ocupação das letras negras a preencher as páginas brancas da história.

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