André Luiz – Querido pai

Querido pai, 

Fico feliz em saber que finalmente encontraram o lugar que procuravam. Espero que as hiper-estaduais estejam cuidando bem de vocês, lembre que a estrada é perigosa com todos aqueles caminhões autônomos e rotas magnéticas. Ainda acho loucura não deixar o piloto automático cuidar de tudo.

 É sempre engraçado receber seus hologramas, os reproduzo aqui na sala e a Laurinha sempre fica viajando e revendo por horas. 

Tenho que admitir que suas aventuras me preocupam, ainda mais com a mamãe no meio. Sei que acha que pode fazer tudo com seus novos implantes, mas por favor, lembre que já é um senhor de idade.

Todo dia checo o relatório de vocês, ainda bem que vocês levaram suas roupas smart.

Não é a primeira vez e tenho certeza que não vai ser a última que peço cuidado. Chega até a ser engraçado, toda carta é a mesma coisa e até parece que sou a adulta da história. Falando nisso, porque ainda continuamos com essas cartas? Já faz um ano nesse vai e vem, coisa que poderíamos resolver com uma simples projeção. Mas só de pensar já sei sua resposta, algo como “as palavras são capazes de viajar no tempo” ou “escrever te dá a liberdade para fazer o que quiser.” Sinceramente, nunca entendi muito bem esse lado, mas aqui estamos. 

Estou com saudades e até pensei em visitá-los de surpresa. Não sei por quê resolveram ir de carro sendo que hoje dá para pegar um vagão sônico e em poucas horas chegar do outro lado do país. O bom de morar aqui em Brasília é estar no coração desses trilhos sônicos. Dá para andar por toda a América Latina daqui, mas você insistiu em ir de carro. Nunca vou entender isso.

Tirando essa vontade, tudo continua na mesma. A cidade parece que não muda, quer dizer, depois de toda a reforma estética de 2049 ela finalmente teve um sossego. É engraçado como os traços futuristas de Niemeyer se tornaram elementos nostálgicos em meio aos prédios arrojados e as superfícies refletoras. Até parece uma daquelas utopias do Aldous Huxley.

Aqui os dias passam naquela mesma intensidade e ainda estou me acostumando com as novas diretrizes. Finalmente o modelo trabalho de 40 horas caiu por terra, essa velharia foi tarde, finalmente perceberam que deixar a pessoa livre para viver traz grandes benefícios para a sociedade. 

Só sei de uma coisa, é muito bom acordar, entrar na minha estação remota e ficar lá só 4 horas. Esse tempo extra me dá a liberdade para dar uma volta pela Ceilândia, para ver os biomas purificando o ar, para escutar o silêncio das estradas e principalmente para pensar. Tenho feito muito isso e sinto que os medicamentos estão me ajudando a voltar ao normal.

A Laurinha também está adorando, tenho que admitir que há cada dia ela me lembra do senhor quando era criança. Ela não fica quieta! E essas novas próteses de movimentação a deixaram ainda mais forte. Apesar da preocupação é lindo vê-la reaprendendo a andar. 

A vida aqui em Brasília vai aos poucos se ajustando. Minha carreira na universidade está indo bem, recentemente vi um artigo que iria te interessar. O engraçado é que não lembro ao certo, mas era algo sobre como a renda universal foi capaz de nivelar as oportunidades. Sei que o senhor adora esse tipo de assunto e a mamãe também, então vou procurar no acervo e mando pros seus dispositivos. 

Pensar nesse assunto me fez refletir sobre como tudo mudou bem rápido. Eu meio que cresci junto com essa nova cidade e não consigo imaginar um lugar onde Brasília era o centro das atenções. Nunca entendi aquele papo de cidades satélites, nem de regiões administrativas. Para falar a verdade, adoro a noção que cada região é o seu próprio polo econômico, cada uma com a sua cara e todas conectadas pelos aerotúneis. E pensar que a Nova Brasília viria da união dessas regiões, adoro isso é tão.. Candango.

Mudando de assunto, tenho uma excelente notícia. Finalmente terminei a restauração!

Agora a Ceilândia tem sua própria casa vintage para contrastar com os tecnológicos nichos residenciais. O engraçado é ver o pessoal tirando fotos daqui como se fosse coisa de outro mundo, mas olhando bem é só uma casa antiga de 2020. Tenho certeza que o senhor irá adorar, mesmo que ela traga lembranças tristes. (Adoraria ver sua cara depois de ler isso. Hahaha). 

Desculpe se minha vida aqui não é tão agitada quanto a sua, mas infelizmente ainda não posso embarcar nessas suas aventuras. 

Creio que as próximas cartas vão trazer algumas surpresas, não posso falar nada ainda, mas pai. CONSEGUIMOS! Finalizamos nossa proposta de transhumanismo e logo a universidade vai virar assunto no país inteiro. 

Sei que deve ter ficado curioso, mas por agora isso é tudo que posso contar. Além do mais, o senhor mesmo disse que uma boa história deve ser contada na hora certa. 

Aproveitem cada momento. Faz muito tempo que vocês queriam reencontrar suas raízes. 

Tenho muito orgulho de vocês.

Com amor, 

Michele.

PS: Essa máquina de escrever leva uma eternidade, mas continuo insistindo nessa velharia.


SOBRE O PRODUTO:

A obra aplica os temas de equidade dentro da realidade das personagens, trazendo relatos práticos sobre o processo de inclusão, a presença da tecnologia e os caminhos para esse futuro. É uma carta que dá o deslumbre de uma história maior, apresenta uma relação entre pai e filha e por meio dessa ótica que o futuro se mostra presente.

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