Andromeda Cruz – Incendeia, Irmã!

quando nascer a primeira flor do ipê, me prometa que será fogo. 

me prometa que será labareda, que sua caminhada será chicote, que será lembrete  diário não apenas de si, mas de tantas. não apenas da dor, mas também daquilo que é  célebre. por favor, me prometa, me prometa que dirá seu nome, em alto e bom tom, o  nome que você escolheu, assim como todas nós escolhemos. não há vergonha em você  ou seu nome, mas sim na fria e terrível chuva que nos reduzia às cinzas. 

você, por favor, quando nascer o ipê, ressurge e voa, anuncia que já é a seca, anuncia  que a terra há de rachar, que no seu compasso ela há de tremer. anuncia que é sol, que é  estrela, que acalma, que é também vida. que você, meu bem, também é vida. que em meio ao planalto seco e escaldante, que em meio às linhas retas e espaçadas você é anúncio do  sonho de todas nós – porque se você fala, ecoamos, transcendemos, tornamo-nos histórias, tornamo-nos reais, vistas, vívidas. se caminha por aquelas ruas, nos dá o poder de também  por lá caminhar.  

juntas, todas nós em nossos incêndios particulares, tornamo-nos nosso próprio calor,  nossa própria proteção do frio tempestuoso. juntas nos anunciamos ao futuro, o  construímos com nossas próprias mãos, com nossas feridas o tornamos belo, o mudamos  à nossa maneira tão irreverente de sermos. porque só de se ser quem você é, meu bem,  você é história, você é muitas. você mostra que se pode sim – você é a vela embaixo da  mesa, acesa e persistente mesmo que escondida, mesmo que cerrada de sua verdadeira  função: o iluminar. não se deixe ser soprada, me prometa.  

quando morrer a última flor do ipê, me prometa que será chama. 

prometa, irmã. prometa que nossa verdade, que habita você e habita a nós, jamais  em ti se apagará. prometa-me o sorriso, a beleza, a certeza, a força. prometa-me a  fragilidade, a doçura, o perdão, a compreensão. prometa a si e prometo a mim. 

e que assim façamos juntas o nosso próprio incêndio. 


SOBRE O PRODUTO:

O produto “INCENDEIA, IRMÃ!” fala sobre um futuro no qual travestis e mulheres trans vivem plenamente a sensação de irmandade e também constroem, elas mesmas, seus próprios futuros, próprias redes de apoio, próprias possibilidades e realidades. O Planalto Central se torna palco para as construções dessas identidades e também lar para o amor, delas, por elas e para elas.

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