Paulo Dagomé – Bsb2060

como a fênix ressurge das cinzas ao fim de um período xis

e como o urso acorda no fundo da gruta após o período da hiberna

retornarei nalgum ponto do tempo pra ter a vida que eu quis

entre os amigos eleitos na cidade escolhida numa estrutura moderna

com leis escritas no peito com o laser da consciência grega

plus ultra contemporânea numa urbis multi completa

verei automóveis flutuantes em vias via de regra

sem os habituais solavancos de minha triste sina de poeta

levitarei pelas ruas com meus patins voadores e num laptop virtual

escreverei meus poemas numa metalinguagem interplanetária de sete caracteres

ciclistas voarão ao longe escolas virão em chips e como é natural

alimentos comprimidos vestimentas descartáveis e libertárias mulheres

sem mendigos nem esquinas palácios e palafitas sem patrão ou serviçal

sem o abismo assoberbado que separa o eletricista dos lingotes do banqueiro

neste mapa do futuro satélites transumanas nos revelam afinal

a internet nas coisas o sustentável nas mentes o amor como timoneiro

pinga diet sexo light comprimidos do mais puro oxigênio da Amazônia

livros em dedais celulares de pulso computadores de bolso maravilha de país

é onde vou acordar da hibernação que farei na mais completa insônia

como a fênix ressurge das cinzas ao fim de um período xis

Paulo Sérgio Sena Santos

(Paulo Dagomé)


SOBRE O PRODUTO:

Paulo Dagomé afirma que, diferente dos seus pares, adora a expressão “Cidade-Satélite”. Enquanto uns acham pejorativa, ele, ao contrário, desde que chegou a Brasília, adora a expressão. A mesma o remete a estações espaciais, postos avançados onde as espaçonaves fariam os últimos ajustes e carregamentos antes de embarcar para viagens interplanetárias. Essa visão que o acompanha há trinta anos foi a inspiração para o poema apresentado, que foi escrito há vários anos e que o edital o fez ir buscar em meio à poeira que encobre seus alfarrábios. 

Nascida de um projeto futurista por si, a cidade não perde esse caráter. Apesar do passar dos anos, o Plano Piloto sempre pareceu ao autor essa plataforma central onde as variegadas formas de vida alienígena (até porque vindas de diferentíssimos rincões) se encontravam para fazer seus negócios e engendrar seus destinos. Paulo sempre amou o Plano como esse lugar de passagem, de impermanência, de maquete real, de vitrine pétrea. Sua luta sempre foi a tentativa de unir a maquete à satélite. Encurtar a distância entre esse planetoide e as estações espaciais. Diminuir o abismo entre as olarias de São Sebastião e o concreto armado da Esplanada. Nunca com rancor, inveja ou ressentimento. Sempre com esperança, utopia e desejo que o que está dado, dado está e não há tempo para lamentações. 

O poema remete a essa visão de cidade onde as diferenças sociais e econômicas sejam diminuídas, senão vencidas, onde os habitantes sintam a cidade como uma só, seja estando no Plano, seja estando nas satélites, sem o ranço da divisão que ora se impõe. Até lá, muita luta de classes, muita pressão do movimento social sobre as elites ignorantes, muito sarau, muita ciranda, muito slam, muito gás lacrimogêneo, muita ocupação de espaço, muita luta identitária e muita luta contra a opressão. Mas a cidade desejada há de ser construída. 

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