Caliandra Molotov – Não me leve a mal

Ei, Brasília, como foi que tu nasceu? 

Sabe, todo dia nasce uma criança. 

Nos corações-esperança e nos corredores de hospitais lotados. 

Se a infância é a camada mais fértil da vida, alguém avisa ao poeta que do outro lado, lá na beira, longe do centro, a fertilidade caminha na gravidez que interrompe sonhos, infâncias e possibilidades. 

Fértil é a mente do menino que te vende jujuba no sinal fechado, pensando enquanto a luz verde não acende pra tu seguir teu caminho aberto: E se um dia eu pudesse entrar no Zoo? Ver o mundo lá do alto do pescoço das girafas e descobrir como elas bebem água? 

Sabe Brasília, tenho sede. Sede de oportunidade, reconhecimento e honra ao trabalhador que te mantém de pé. 

E tu, segues bebendo da água da sapiência de nossas senhoras, que do lado de cá firmam suas hortas autônomas, autoras da própria força…, mas que acordam cedo demais pra lavar tua louça. 

Mas não, não! Não me leve a mal! Da janela do baú enquanto corro pra bater cartão, tenho tempo para admirá-la. Seus ipês, paineiras, cigarras e abacateiros enchem os olhos de esperança e beleza…, mas embaixo de tuas árvores um irmão sem prumo chora de barriga vazia…que ironia, cidade pomar! 

Daí o coração da poeta se faz pó, feito tua seca que rasga a garganta e trinca os lábios. Boca de gritar revolução: A cidade é nossa!  

Te quero Brasília, te quero acordada e construindo a justiça que está presa e quer mirar liberdade em tuas próximas décadas. 

Não! Não me leve a mal, Brasília! 

Mas o coração de poeta, chora. 

Te quero de asas abertas, dispostas a alçar o voo nordestino do povo que te ensinou e te fez possível, te fez pássara. Alada. 

Semente alada, germino eólica entre suas superquadras. O berro da cigarra anuncia: É chegada a hora de uma nova história! 

E ela é Caliandra, resistência! 

Brota firme no cerrado: Flor que te nina os olhos da beleza, mas desperta firmes e atentos para novos horizontes!


SOBRE O PRODUTO:

O poema “Não me leve a mal” é convite para reflexão que transforma e traz pra ação as mudanças necessárias para um amanhã possível para todes nós. Falar de Brasília e buscar caminhos possíveis de equidade só é efetivo ouvindo a periferia. Construímos, mantemos a força dessa cidade. Ouvir a poesia que ecoa nos becos das quebradas é ouvir a voz negra, feminina, masculina, nordestina. Vozes que carregam em sua expressão a empírica legitimidade da resistência e o grito que ressoa essa revolução que tornará a capital mais justa, transformadora e com oportunidades para todes.

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