CAMILA SOL – CARTA ÀS CRIANÇAS DO FUTURO

Brasília, 15 de março de 2021. 

Caros erês do futuro, 

Essa carta é como a chave de um segredo em forma de pedido. Um pedido que faz gosto atender, que pelo coração, fazer diferente ninguém quer. Essa carta vem pedir uma coisa: NÃO DEIXEM DE BRINCAR! Libera a imaginação, deixa ela ir longe! Faz de conta que é bicho, que é rei, ET, herói, bailarino. Pula, estica, arrisca e inventa. Não precisa segurar nem riso nem choro. Você criança pode ser gulosa, aproveita! Mergulha no mundão! Fica junto de quem tá solto e chama quem não tá, uma hora vem. E quando achar que não é mais criança, saiba que a brincadeira só vai aparecer de outro jeito, mas vai continuar ali, possível pra todo mundo. Então não deixa ninguém tirar essa magia da sua cabeça. 

Brincando a gente consegue entender melhor as pessoas, saber o que é certo ou errado, o que dói, o que cansa, faz cócegas ou é engraçado. Assim a gente também vai entendendo a gente mesmo, descobre o que gosta e até os nossos talentos. 

Imagina voltar no tempo… Não agora no meu tempo, mas antes! E mais antes e mais antes! A gente já brincava, porque brincar é da nossa natureza. Num tem tablet, num tem vídeo game que mude isso. Já pararam pra pensar como seus pais brincavam? O que eles faziam de conta que eram, se usavam galho, panela, papel, corda, bola. Pergunta pra eles. Brincar é estar vivo, é compartilhar e aprender. 

O tempo passa, e o jeito de brincar também vai mudando. E tá tudo bem! Só não pode ficar sem graça e sem movimento. Só não pode ficar sozinho também. Brincadeira boa a gente faz junto. Inclusive a rua é grande e pode trazer muitas ideias boas! Brinquedos prontos são legais, mas dá pra inventar brinquedo também. Na verdade é tão fácil brincar que nem precisa de brinquedo, nosso corpo pode ser o próprio brinquedo, que roda, dança, abaixa, salta e gira. Vira de cabeça pra baixo e consegue ficar assim, parado ou andando, tem noção? A capoeira, por exemplo, é das brincadeiras mais bonitas e potentes que já inventaram. Ela ensina a se defender, ajuda a entender o mundo, faz a gente ficar forte, habilidoso, além de tocar e cantar nossa história. A cultura popular brasileira é muito valiosa. Vocês estão no futuro e com certeza muita coisa já aconteceu, mas estou certa que ela está viva e presente. Procure saber! 

Tem certas culturas que são tão boas na magia da brincadeira que juntam histórias, fantasias, máscaras e várias músicas legais. Levam a sério mesmo! E isso deixa eles mais felizes, mais entrosados e mais inteligentes. Brinca homem, menino e mulher. Brinca a avó, o primo e a vizinha. E todo mundo sabe as regras porque aprende desde bebezinho. São regras que nem precisam estar escritas, tão nos mitos, nas cantigas, nos segredos e até mesmo no formato dos instrumentos, no tamanho das máscaras, na cor das roupas… uma coisa linda! 

No continente africano é assim, a brincadeira é parte muito importante da tradição e está em todo lugar. Como boa parte da população do Brasil vem desse continente através dos nossos pais, avós, bisavós ou tataravós, temos várias brincadeiras parecidas. Chamar os amigos pra brincar aqui do mesmo jeito que se brincava lá, é como uma viagem no tempo. E como em toda boa viagem, os sonhos ficam maiores!! Separei algumas para contar. Elas não precisam de objetos muito difíceis de achar, para brincar, basta querer. Vamos lá! 

  • “Mbube, Mbube” é uma brincadeira da África do Sul. “Mbube” é um termo do povo Zulu que significa Leão. Nessa brincadeira a ideia é avisar a presa que o leão está chegando. Funciona assim: todo mundo fica em círculo e no meio duas pessoas vendadas, o leão e sua presa. Depois de dar uma giradinha para eles ficarem desnorteados o jogo começa, todo mundo cantando “mbube, mbube” bem devagar, e quando o leão vai chegando perto da presa começa a cantar “mbube, mbube” bem rápido! É como se fosse um “foge do leããoo!” Não tem quem não fique com o coração acelerado. Bem engraçado! 
  • “Mamba” é origiral da Nigéria. Se brinca assim: divide duas ou mais equipes, e cada equipe forma uma fila segurando um na cintura do outro. O último jogador de cada equipe coloca um lenço no bolso de trás. A primeira pessoa da fila comanda a perseguição e tenta pegar a ‘cauda’ (o lenço) de outra equipe. Ganha quem pegar mais lenços. Se houver apenas duas equipes, vence quem pegar primeiro. Fica com corre corre danado, por isso é importante delimitar o espaço. 
  • “Wasta” vem do Egito antigo, e significa conexão. Pra brincar de Wasta vai ser preciso uns cabos de vassoura, ou bastões de madeira. Ficam todos em círculo segurando a frente seu bastão. Uma pessoa no centro do círculo comanda a brincadeira dando o comando de “Wasta!”. Nessa hora, a galera solta o bastão no lugar, em pezinho, e rapidamente pega o bastão do colega a sua direita, quem deixar o bastão cair, tá fora. Essa é uma das minhas preferidas! Dá um frio na barriga, mas tem que manter a concentração. 
  • “Ampe” é uma brincadeira de Gana e funciona assim: uma pessoa é a líder, as outras ficam alinhadas lado a lado em um semicírculo. O líder começa o jogo de frente para a primeira pessoa da fila, onde as duas, ao mesmo tempo, batem duas palmas, giram, dão um pulo e param com um pé na frente do outro. Se o pé que parou na frente for diferente do pé do líder, ponto pro líder! O líder então passa para o próximo jogador e assim vai até o fim da fila. Ao final o líder que tiver mais pontos, ganha. 
  • “Kameshi Mpuku Ne” significa gato e rato, e foi criada pelo povo Luba, do Congo. Essa é mais legal com muita gente. Formam-se fileiras e colunas com o mesmo tanto de gente, 4×4 ou 5×5 por exemplo, 3 pessoas ficam de fora. Entre cada jogador, mais ou menos um metro de distância. As pessoas da mesma linha ficam de mãos dadas. Em um corredor começa o rato e em outro o gato, a ideia é o gato pegar o rato. A perseguição começa pelos corredores, até o líder gritar “troca!”, e todos soltam as mãos de quem está na linha e segura a mão de quem está na coluna. Isso muda a direção dos corredores, confundindo gato e rato. O jogo termina quando o rato for pego. 

Boa viagem e divirtam-se! 

Camila Sol
Arte-educadora, produtora cultural do DF e mãe da Ioná Rosa. 


SOBRE O PRODUTO:

Numa linguagem simples e objetiva, o produto fala da importância de brincar, suas vantagens e processos históricos. Aborda a sociabilidade trabalhada durante o ato de brincar e convida o leitor a refletir sobre a brincadeira ao longo do tempo. O tema da equidade se faz presente ao ressaltar que não há idade para brincar, basta estar vivo, que os recursos lúdicos são acessíveis, passíveis de improviso e construção, até mesmo existentes no próprio corpo. Acredita-se que no futuro, a brincadeira de rua pode estar ainda mais difusa, dessa forma recomendações que reforcem sua importância e orientem sua atividade, mesmo que de forma simples, como em uma carta, tem grande valor. Brincar é coisa séria. É corpo são, mente sã e coletividade presente.

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