IAN VIANA – Trilogia Límpida do Cerrado

I.

uma cidade sem marquises para seus mendigos

e calçadas para seus poetas

só pode ser uma farsa

eu sei que vocês andaram lendo poetas daqui

e seus poemas sobre a l2 e a w3

e alguma muda de abacateiro

nos canteiros do plano piloto

tudo bem

mas.por.acaso.

vocês já tentaram caminhar em agosto & sua seca por essas quadras segurando seus filhos numa mão

e as sacolas da compra do mês na

outra?

a.t.e.n.ç.ã.o – isso não é um panfleto.

mas não por isso eu vou deixar de cantar minhas entranhas

juvenis que são nascidas nesse perímetro

esse não é um poema sobre Roma e seu Imperador

-talvez sobre Antinoo-

esse é um poema sobre nós, os bárbaros

que rodeamos a cidade em satélites ultrapassados do séc xx

e aguardamos ônibus por horas e horas e horas

e pagamos o nosso almoço para assistir

onças magricelas no zoológico.

esse é um poema sobre meu tênis de sair

porque o outro é de ir a escola

acontece que hoje eu não me importo

mas eu me importava e todos os dias

crianças & adolescentes compram tênis falsificados

ou roubam – quando mais corajosas –

para atravessar a cidade por seu subsolo

nesse metrô anoréxico.

nisso niemeyer e seu comunismo

lúcio costa e seu projetinho

jk e seu peixinho

não pensaram

o que é óbvio

mas nem sempre foi

porque quando elefantes brigam

é a grama que sai prejudicada sempre

mas acontece que ninguém

eu disse ninguém

conta isso para as crianças e suas flores

ninguém pisa seus pés no chão

ninguém faz poemas sobre as marias

e seu medo de avião & a saudade da família

eu disse poemas

e não panfletos

porque nossas crianças não suportam mais panfletos

nem nossos adultos

nem nossas putas

porque da última vez que entregaram panfletos

essa cidade se alagou

e a água turva levou nossos índios

e construiu condomínios fechados com o nome de “oca”

em seus lugares

e nosso coliseu foi transformado num shopping

nossa universidade foi transformada numa igreja

nossos alunos em fiéis

nossos políticos permaneceram polítcos

e nossos poetas se esconderam em seus livros.

mas disso ninguém fala.

II.

Há de se buscar

um orixá perdido de Taguatinga

uma entidade do barro e olhos de pitanga

a energia & a busca dos pretos velhos sentados sob o relógio

& os patajós com suas flechas de tamanduá conduzindo crianças

pelo caminho do que é inacreditável

Há de se buscar na galeria de Ivaldo

entre suas fotos e sonhos de carroça-liamba

em cada palito das pingas de mel do kareka

no samba alcoolizada da avenidade samdu

e da comercial incendiada aos sábados

por mim e meus amigos e minhas amigas

de mercado sul contemplando as flores

silvestres nascidas entre o capim

respirando o passado dos caboclos

e seus bois

um apito vaga eternamente

– desde meus 5 anos –

pelos meus sonhos de infância

a bola jogada na rua com gols

dedicados às primeiras namoradas

amoladores de faca desfilando junto a

vendedores de pamonha com a sinfonia dos carros de gás

e profetas alcoólatras me exibindo o outro lado da vida

Meninas evangélicas jogando feitiços em meus beiços atrás das moitas ardentes

eu caindo no abismo dos santos e sofrendo observando os velhos e seus jogos no bicho

tudo isso nos teus olhos

nos teus olhos

nos teus olhos

enquanto minha mão direito segura teu rosto macio

com lágrimas saídas das águas do mercado Veneza.

III.

Você é mais bonita

Que  o cheiro de uma nota de 50 reais recém saída de um banco

e entregue a um mendigo na rodoviária

Você é mais bonita que a água da Ermida numa tarde de Domingo

quando o sol se vai

que um filhote de capivara

que o cerrado ardendo em fogo no mês de Setembro.

Você é mais bonita que uma máquina de moer cana

da pastelaria Viçosa quando o ônibus não vem

e que o Itamaraty queimando em alguma noite de 2013.

Mais bonita a poesia de Juliana Motter

que os vitrais da Igreja Dom Bosco

e o segredo da Molho de Tomate.

Você é mais bonita que o bar nas 400

que vende litrões à 6 reais

e tem banheiros sempre limpos

Olha,

você é tão bonita quanto o Setor Comercial

em Dezembro

e quase tão bonita

quanto o Mercado Sul.


SOBRE O PRODUTO:

O poeta é um pintor de mundos, sua linguagem secreta porta as cores de muros, campos, mares, peles, altos edifícios, avenidas, aves, ventres, bosques, pelos. Em busca de meu alfabeto, fui às três cores da cobra coral: preto, vermelho e branco. Mas meu arco de cores se estende ao azul vertical e horizontal dos céus de Brasília. Eis que nesta cidade destinada às geometrias nasci, destinado às encruzilhadas assimétricas, criado por mulheres, seduzido pelos mitos brasileiros primordiais, tentando ser mensageiro do carnaval do centro abandonado da cidade. Debruçada sobre a arquitetura-utopia, minha proposta visa engolir a vida e explorar o universo sem-fim de suas origens, sem medo dos versos livres. Brasília, Nordeste e Madureira nutrem o desejo de Brasil em minhas letras que almejam inscrever este trágico país em seu destino. As influências de Hilda Hilst, Ivone Lara, Clementina de Jesus, Selma do Côco, Lia do Itamaracá, Roberto Piva, Oswald de Andrade, Allen Ginsberg, Glauber Rocha, sociólogos, antropólogos, romancistas, além de Kopenawa, o xamã Yanomami que anunciou a queda dos céus trazem o corte d’onde sangram minhas palavras. Beleza é verdade, confiava Keats. A equidade para um nova futuro, ao meu ver, depende disso. Abster-se dos moralismos, da estética do vira-latismo, da dependência, das opressões e guiar-se pelos desejos. Os reais desejos, advindos de um Brasil esquecido, apagado pelo “Brazil”.

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