ÍSIS ASTRA – DOIS MIL E SESSENTRANS: UMA CONVERSA ENTRE TRAVESTIS

02/09/2060

Cara Travesti Futurista,

Se essa carta chegou em suas mãos de duas, uma. Ou eu morri antes de completar 35 anos, ou estou viva e aposentada viajando por aí. Provavelmente nós não nos conhecemos, então antes de continuar esta carta, permita-me uma breve apresentação; quem sabe assim nos sentimos mais íntimas. 

Para começar meu nome é Isis Gabriela Astra, sou estudante de comunicação organizacional da Universidade de Brasília e sou travesti preta. Esse provavelmente é o momento em que você se pergunta: “Hum, qual a necessidade de dizer que é travesti? ”.

Vocês do ano de 2060 podem até não entender o sentido de ler em uma carta alguém se afirmando travesti, como um ponto focal da história. Mas só quem viveu antes de vocês sabe a real necessidade de deixar nossa identidade de gênero explícita. Começando que no ano 2021 o nosso país foi premiado pelo 13° ano consecutivo como líder em assassinato de pessoas trans, depois o índice de empregabilidade está bem baixo também, e por último, nossa estimativa de vida ainda é de 35 anos. 

Dados que me assustam muito todos os dias ao sair de casa, por isso decidi deixar registrada a real situação das pessoas trans deste ano, quem sabe aí em 2060 as coisas mudem né?

Antes da sua lágrima descer (se é que nesse ano as pessoas aprenderam a ser sensíveis) vou listar umas coisas que no meu tempo de travecagem eram bem difíceis, quero saber como as travas do futuro lidam com a situação.

1° As gatinhas já conseguem se hormonizar pelo SUS

2° Como anda a questão dos empregos?

3° As pessoas já respeitam os pronomes das pessoas trans?

4° Tem travesti casando?

5° Qual a estimativa de vida travesti?

Bom acho que é isso, espero que a sua vida seja melhor do que a minha foi. Menina pagar o Evra, era babado viu. Com amor Isis.

PS: Se eu estiver viva ainda é só pesquisar por Isis Astra, porque eu fiquei famosa como a primeira travesti brasileira dona de uma agência de publicidade.

02/09/2060

Cara Isis,

Te escrevo esta carta em respeito e solidariedade a tudo que você me relatou em sua carta, você passou por muita coisa que eu nem imagino como eu faria se estivesse em seu lugar, mas como é um papo de trava nova para trava antiga (como todo respeito a sua idade), saiba que muitas coisas mudaram e que hoje vencemos muitas batalhas. Assim como você se apresentou deixa eu me apresentar também. Me chamo Jade, sou a atual ministra da saúde, tenho 45 anos e como você mostrou também sou Travesti.

Ao ler sua carta percebi que vivemos em eras completamente diferentes, a começar de que  você disse que a expectativa de vida da sua época era de 35 anos, mas de 2040 pra cá conseguimos garantir mais pessoas trans a frente do ministério da saúde, assim conseguimos garantir o atendimento e o direito à saúde para população de maneira justa e responsável. 

Melhoramos a educação e hoje temos não só um ambulatório trans, mas um centro médico de ensino e pesquisa composto por médicos e médicas trans em todas as especialidades. Assim, o hospital escola consegue atender a população e ainda aprender com cada atendimento.

Quanto à empregabilidade, o ministério do trabalho e emprego hoje possui a pasta de empregabilidade T. Que exige que todas as empresas devem ter pelo menos 15% das vagas ocupadas por profissionais trans (essa medida foi bem polêmica).

Menina sobre pronomes, hoje com todos os acessos que nós temos é inevitável que respeitem nossa identidade de gênero. Nas eleições de 2058 tivemos Jamilah Neves, a primeira governadora travesti eleita em seu segundo mandato, vitória que alcançamos com muita luta.  Com isso as relações de afeto também mudaram, e cada dia mais estamos evoluindo, eu mesma sou casada e mãe de 4 filhes.

E por fim a estimativa de vida trans atual é de 75 para os transmasculines e homens trans e de 70 anos para as mulheres trans e travestis.

Obrigada Isis por me fazer enxergar através de sua carta o tanto que outras lutaram para que hoje Brasília possa vivenciar todos os avanços sociais, científicos e culturais para as pessoas trans. 

Com afeto,

Jade

PS: Se essa carta não chegou em você é porque em 2060, abandonamos o papel.


SOBRE O PRODUTO:

Em 2021 o Brasil foi eleito pelo 13º ano consecutivo como o país líder em assassinado de mulheres trans e travestis. Nossa comunidade hoje não tem assistência naquilo que mais precisamos: a garantia dos direitos básicos previstos no artigo 5º da CF. Dito isto, esta proposta apresenta duas cartas da capital do Brasil. Na primeira, Ísis, uma travesti de 25 anos, acreditando em um futuro melhor, escreve para alguém que ela não conhece, na esperança de que sua história seja contada. Na segunda, Jade, que ao encontrar a carta em 2060, percebe a luta de outras travestis que como ela seguem na busca por uma vida melhor.

2 respostas to “ÍSIS ASTRA – DOIS MIL E SESSENTRANS: UMA CONVERSA ENTRE TRAVESTIS

  • Parabéns, Isis.
    Essa é carta de uma mulher hétero de 43 anos em 2021 que tem muito o que aprender ainda. Mas que deseja ardentemente amar e respeitar as pessoas como elas querem ser. O tal palavra empatia anda na moda, mas poucos realmente exercem. E meu desejo é que a gente chegue ao ponto de não precisar de competir em mais nada por que temos lugar pra todo mundo.
    E eu chorei com as cartas. E eu espero que a gente volte a se abraçar.

  • Parabéns pelo texto, Ísis.

    Gosto muito do seu otimismo, expresso na carta de 2060. Torço imensamente para que até lá alcancemos, enquanto sociedade, toda igualdade, respeito e empatia que a comunidade Trans e Travesti merece ter reconhecida.

    Abraços,
    De uma mulher cis de 2021.

    /ps: se essa resposta chegou até 2060, é porque os seres humanos ainda tem o hábito de ler a caixa de comentários dos sites, principalmente de notícias.

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