João Peçanha – Manifesto Artequidade

MANIFESTO ARTEQUIDADE

Só a arte nos une.

Sim, o mundo todo é um palco. Isso não é novidade – desde os tempos de Juvenal, Pitágoras, Shakespeare…

Antes, é fato desde as primeiras civilizações: Atlantes, Keméticos, Kushitas, Nokitas, Bantus, Mesopotâmicos, Persas, Incas, Maias, Astecas, Guaranis, Tupinambás… 

(Em alguma delas a arte falhou?)

A arte é um arco anterior à ciência, é a história antes da história.

A primeira e a última luz a nos guiar.

Não existe civilização fora da arte. 

É realidade inescapável – princípio, evolução, fim. 

Quem poderia viver sem respirá-la?

Somos atores, atrizes, performáticos de nós no mundo. 

Desde a mais tenra das 7 idades, somos artistas entregues à nossa essência,

universal humano que a Antropologia não pôde provar – mas se pode sentir.

Verdade primordial, divina, que quando animada pela vida dança os bailes uterinos. 

Que tudo desenha – pelo ar, no gesto, no chão ou na tela que for – pintando quadros de descoberta.

A voz que é canto – dentro ou fora da escala musical. Desde o primeiro berro, desde o silêncio inicial. 

Somos muito mais que claves, (semi)tons, comas… Compomos e cantamos nossas próprias melodias, tenham suas notas nomes ou não – em timbres de cordas de carne e sangue.

Somos polifônicos, polirrítmicos. Passos que vêm de longe e batucam linhas de tempo que não cabem em compassos contados, em conceitos fechados de duras partituras…

São ecos antepassados: são ecos de nós-no-passado.

A arte sou eu, é você – nos engole, digere, contém. Autoantropofagias.

Matéria da qual são feitos os povos. Força de comunicação que nos tirou da simples existência e forjou o ser.

A arte é!

O sagrado e o profano: é o equilíbrio perfeito.

É a perfeição do imperfeito. O triunfo da verdadeira sensibilidade de existir.

A liberdade de ser o que é. De ser diverso e ser igual. Inspirar o ar comum, e expirar o que é único. Inigualável. E que de tão pessoal, só faz sentido se visto em outrem.

Aplauso é espelho.

De uma pequena parte, a imensidão de tudo.

Somente ao me dissolver no todo é que posso ser eu – somente assim posso sentir você.

Diferentes, mas iguais na dependência de ser!

Iguais na diversidade – essa é a nossa verdade – ARTE que não cabe em si.

Sejamos então arte.

A que comunica – transforma o caos primordial em sabedoria.

A guardiã da plenitude

que grita em sussurros na mente – 

“seja você, todas as versões de você, e se encontre em todos e todas… 

Só assim você SERÁ!”

Arte que não se hierarquiza. Um único limite: o infinito criativo.

O que falta para uma vida de beleza, verdade, sensibilidade?

Se somos arte e em arte estamos envolvidos pelos mais simples atos… Se falar, respirar, caminhar, viver: tudo é performance em um palco de atores/atrizes, músicos/musicistas, pintores/pintoras que se desnudam em verdades até quando (pensam que) a encobrem…

O que falta para a plenitude da arte!?

=

A coragem de viver a radical equidade!

Liberdade de ser sem medo. 

Rebaixe-se o cânone de seu pedestal. Que aprenda com as verdades vividas, não arquitetadas em suposições, ideações parciais, caiadas em estética criada (e oca). 

Aprender no profundo do simples: diferenças são complementares – não rivais.

Viver potências masculinas e femininas em todas as suas nuances, corpos e manifestações. O eterno contínuo por onde dançam afetos, amores, vidas. E mergulhando perceber que nem sempre os extremos explicam sua profundidade. E isso basta! 

Não se discute a arte de(o) ser!

Saber amar a si – pele, cabelo, texturas, tamanhos, curvas e formas – e a seu povo. 

E amando iguais, também apaixonar-se por diferentes, pelo outro.

Admirar as cores: ricas e belas paletas de peles.

Tons de ancestralidades marcadas, tatuadas, a exibirem desenhos de cicatrizes. 

Marcas de resistência, orgulho, pertença, ensinando o caminho para não errar: 

basta segui-lo para vencer sem sequer guerrear. 

Ancestralidade é arte e não se discute – se honra.

Entender que nem tudo se sabe – que o mais distante pensamento de outrem pode ser o pássaro que nunca se pôde admirar sob seus céus. 

É saber que o que há de mais Sagrado, a Deusa Natureza, fala a língua universal de quem sente. 

Não importam nomes. É pela sensibilidade (nunca pelo brandir) que suas sutilezas sagradas se revelam!

Nem tudo se encaixa, nem tudo deve ser encaixado. 

É urgente entender a belesa beleza do erro… 

Fazer a revolução que dá o amoroso direito à contradição. 

Somos nós: diferentes artes a nos comunicar.

Por fé – arte do rito. Por inteligência – arte de equilibrar razão e emoção.

Diversidade das artes – todas as performances do ser!

Os jardins mais bonitos nascem de si mesmos, 

regados por liberdades e sonhos.

Nascem dos desencaixes, (des)encontros, f(r)estas… 

Somente a ARTE que brota e acolhe o diverso pode ser PLENA – ao equilibrar a nobre balança da JUSTIÇA.

Arte que não se julga, vive! Justiça que não é cega – zela!

A liberdade da igualdade pela diversidade.

EQUIDADE.

Somente tal radicalidade pode nos salvar da ignorância, da incompletude.

O caminho pleno da liberdade é a equidade do ser-em-arte.

ARTEQUIDADE.

João Peçanha


SOBRE O PRODUTO:

O texto busca relacionar dois conceitos primordiais: arte e equidade. Inicia buscando evidenciar a importância da arte enquanto elemento de construção do próprio sentido de humanidade. Elemento intrínseco ao humano, civilizador, capaz de propor vivências, experiências, relações; o sentido da comunicação por excelência; elemento indispensável à liberdade. Apresenta a necessidade de se relacionar indivíduo e sociedade por uma perspectiva artística. Percebendo a autoria de sua própria vivência artística, tendo consciência de si somente ao permitir-se a diluição na perspectiva o todo, o que também possibilita encontrar outrem. Afirma a plenitude da arte à indispensável liberdade criativa que, se respeitada, inspira necessariamente um sentido de justiça – não a que é cega, fria e imparcial, mas a que compreende, acolhe e zela. Propõe-se então, a partir dos conceitos de arte, liberdade e justiça a integração com a ideia de equidade. Para tal, como elemento norteador de uma nova experiência artística e humana, propõe-se a ideia de ARTEQUIDADE. Dessa forma, demonstrando como são inseparáveis as vivências da arte do sentido de equidade, busca-se construir um conceito útil, prático e orientador de novas vivências – profundas e reais. Ou, ao menos, uma ideia que inspire uma utopia que se sonha realizar.

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