X CÂMBIO NEGRO – PARA BRASÍLIA

Para Brasília

Minha querida,

Espero que esta te encontre bem, no auge de seus cem anos.

Que estejas bela e formosa como sempre, apesar de maltratada por vezes, mas sempre linda. 

Passamos por várias transformações, tú e eu, no decorrer de décadas fomos amados, odiados, bem tratados, cortejados, humilhados, enaltecidos e as vezes execrados mas sempre de pé!

Crescemos juntos pois nossa diferença de idade é de apenas oito anos e vimos o crescimento um do outro.

Muitos de seus outros filhos, naturais ou adotivos, não se sentiam bem convivendo comigo e com outros irmãos e irmãs. Para eles não eramos merecedores de seus afagos.  Eramos negros, pobres, homossexuais, trabalhadores braçais, transexuais, prostitutas, umbandistas, candomblecistas, macumbeiros é como chamavam, empregadas domésticas, mestiços, indígenas, deficientes, enfim, para eles eramos apenas mão de obra facilmente substituível e dispensáveis. Eramos quase invisíveis para direitos mas sempre visíveis para deveres.

Foi nessa época, com doze ou treze anos aproximadamente, que fui acolhido por uma mãe preta chamada Ceilândia, já estava em seu convívio desde que ela aqui surgiu. “”Nêga”” linda, forte, mãos calejadas, as vezes meio durona, mas sempre amável e acolhedora. Recebeu todos nós de braços abertos e com um sorriso farto. Hoje ela tem oitenta e nove anos e aos trancos e barrancos prosperou muito, assim como a maioria de nós.

Hoje te vejo mais humana, menos conivente e necessariamente mais justa. Não acata mais os desmandos, as injustiças, as desigualdades raciais, sociais, religiosas e de gênero. Amadureceu com a sabedoria daqueles que trazem cicatrizes mas que não fugiram das batalhas. Tenho orgulho de ti, sempre tive.

Não fique magoada com minhas palavras, que as vezes são até rudes, mas são apenas desabafos de quem, por muito tempo, queria falar e foi negada a voz.

Hoje estamos com idade avançada e não necessitamos ficar de rodeios um com o outro, temos intimidade bastante pra sermos sinceros reciprocamente, nos conhecemos bem.

Eu, por vezes, estive ausente de seu convívio mas nunca admiti que fosse dito nada contra ti e de minha Ceilândia, são meus amores. Viajei muito, me dei bem e mau mas sempre voltei. A melhor parte de uma viagem e voltar pro aconchego do lar, pro colo e isso sempre tive.

Nesse ano de 2060 só posso desejar que continue bela, justa, igualitária, firme, forte, acolhedora, visionária e leal aos seus.

Com amor, seu filho, X Câmbio Negro!

P.S. Caso eu já não esteja encarnado quando essa lhe chegar saiba que foi escrita em 24 de março de 2021.

Ah, e como sua situação financeira é melhor que a de seus irmãos e irmãs, nunca deixe de ajudar a Ceilândia, Taguatinga, Samambaia, Guará, Recanto das Emas, Sobradinho, Fercal, Planaltina, que já está bem velhinha assim como Brazlândia, Bandeirante, Candangolândia e todos e todas tá bem? Beijos!!!


SOBRE O PRODUTO:

O texto, em formato de carta, apresenta Brasília como uma mulher, uma velha mãe. No decorrer da carta, esta mãe se vê diante alguns de seus problemas, sendo apontada por mazelas como discriminação racial, social, de gênero e exploração de mão de obra. Ela também recebe diversos conselhos, apontamentos de necessidades essenciais de seus filhos, como igualdade, respeito ao outro independente de raça, cor, credo, religião ou local onde reside. O texto finaliza de forma afetuosa, com seu filho declarando seu amor a essa velha mãe.

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